Mexi o café com a mesma apatia que há tempos me assolava. Não havia mais nós dois na estória escrita por mim mesma. Não havia mais você. A solidão que preenchia meus dias já não era tão estranha, afinal, a minha própria companhia passou a ser uma constante. Sentada na mesa mais distante, me distraía observando os pequenos detalhes, que ao seu lado, passavam tão despercebidos. Comecei a reparar no modo de sorrir de outras pessoas, antes, apagado pelo brilho do seu sorriso; e a me cruzar com olhares, que antes, eram ofuscados pelas cores dos seus olhos.

Longe de você, me dediquei a começar uma outra fase, acreditando ser uma nova Era. O meu novo Eu.

Fechei os olhos e respirei fundo para preencher meu peito, ultimamente, tão vazio. Foi aí que senti um calafrio percorrer meus ombros e alcançar meu corpo inteiro. Minha paz se esvaiu e me fez tremer a xícara em minhas mãos. Seriam os seus dedos me tocando de surpresa? Seria, mais uma vez, o terremoto da sua presença me assolando? Meu coração remendado se quebrou em mil pedaços apenas ao imaginar você me tocando. Sim, eu ainda era a mesma sonhadora de sempre. Meus ouvidos se aguçaram na expectativa de ouvir sua voz. Nessa fração de segundos, imaginei você me abraçando e, de pronto, sorri te sentindo em meus braços. De tanto desejar, te flagrei sussurrando um pedido de perdão.

Mas, num piscar de olhos, não havia ninguém a minha frente. Nem ao meu lado. Nem atrás de mim. Uma folha, enfim, deslizou em meus ombros e caiu sob os meus pés. Uma mísera folha de outono que pensei ser suas mãos. Era, mais uma vez, um dos meus sonhos acordados que confundiam meus sentidos e me faziam te lembrar em filmes, te sentir em folhas secas e te enxergar no rosto de outros homens. Era, mais uma vez, a minha obsessiva imaginação que me perseguia, seja no escuro das minhas noites ou em plena luz do dia.

 

Camila Barretto.

 

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”