Queria ter o poder nas mãos de voltar no tempo, consertar as falhas causadas em um passado não distante, ajustar as dívidas que fiz por falta de experiência e, olhe, não foram poucas. Queria também descarregar o fardo pesado de culpa que me afronta diariamente pelo descuido de te amar. Isto era o que mais queria.

Enxerguei o melhor da relação, de você. Eu te via dentro das minhas limitações, dentro do que era confortável. Os meus olhos estavam tomados por uma cegueira que foi incapaz de detectar a tecla de “chegamos ao fim”, mas quando a encontrei, veio junto um alívio que, juro, não consigo mensurar.

Por isso, me enganei quando te quis de volta, quando projetei o nosso futuro, nossos filhos, nosso lar. Me enganei quando o meu coração bobo me induziu a tentar outra vez, e lá estava eu, tomando murros por uma lição já ensinada, mas que por inconsequência faltei as aulas práticas. Nesse quesito, fui reprovada e quase jubilada.

Na marra, tive que aprender, não havia outra saída. Hoje sei, mesmo que a vida não seja como idealizamos, mesmo que as escolhas sejam infelizes, mesmo que o passado tenha sido frustrante. É em vão olhar pra trás e pensar no que poderia ter sido vivido de outra maneira, de ter traçado outro caminho, construído outra história.

Essa é minha história cheia de buracos que, dentro das possibilidades, vou fazendo remendos como posso, costurando fio à fio, tecendo os desafios próprios de quem tropeçou muito, mas que possui um desejo inabalável de estar de pé.

Sofri uma falta na área e concluí que te amar foi um erro que me levou ao acerto na trave, a qual possibilitou o gol mais bonito que já fiz.

Era pra ser.

Errei pra ter consciência de não mais te querer, por amor a nós dois.

 

 

Giulia Christy (escritor parceiro)

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”