É isso. Acabou.

E, na esperança de um recomeço sem fim, me reconforta pensar que tudo que eu fiz nesses últimos quatrocentos e noventa e oitos dias foi um erro.

A começar pela primeira vez em que eu sorri quando você me olhou de canto. Era pra eu ter ficado séria, desviado meu rosto do seu. Mas eu inventei de retribuir seu olhar com um bendito sorriso largo e sincero. Como se não bastasse meu sorriso, eu sustentei o seu olhar por mais de dois segundos, tempo máximo aconselhável para se encarar uma pessoa sem deixá-la em uma má situação. Você ficou sem graça e foi aí que eu me apaixonei perdidamente. Nossa! Como eu me apaixonei por seu olhar atônito naquele dia! Um sorriso, um olhar e três segundos de adrenalina foram suficientes para eu dar o primeiro passo de muitos desacertos em nome do amor – ou, seja lá que nome tenha esse sentimento intricado que me fez tropeçar, a todo o momento, nas linhas tortas do seu destino.

O mais estranho foi que eu fiz tudo certo. Ou, pelo menos, eu tentei fazer.

Porém, contraditoriamente, te querer foi errado. Te querer não foi um deslize bobo que se apaga ao primeiro desabafo com as amigas. Foi um equívoco de dimensões inesquecíveis que me persegue em qualquer lugar do planeta e que martela meu juízo todas as noites antes de dormir. Minha vontade de estarmos juntos foi um lobo ruim que eu alimentei, todos os dias, de bons sentimentos. Eu não queria acordar, de repente, e te dizer que estava equivocada em tudo aquilo que senti. Mas acordei. Eu não queria despejar em você a culpa dessa vã ilusão vivida por nós dois. Mas aconteceu. Eu falei, mesmo sem convicção, que tudo foi uma perda de tempo.

Se você acreditou? Não sei.

Seria mais coerente compreender que nosso amor, mesmo fadado à falência, nunca foi motivo de perda, mas sim, de ganho? Certamente. Afinal, com você, eu ganhei as experiências mais incríveis que minha alma precisava viver. Eu fui mulher. Eu fui menina. Fui a vilã trapaceira que tirou sua roupa e te seduziu. E a mocinha indefesa à espera do seu beijo na testa. Eu fui tudo de uma vez, tudo o que eu quis ser. Mas o meu cérebro ainda insiste em repetir uma incoerente mentira, só para aplacar a dor de um coração partido. Repito, feito velha tabuada de escola, que “te amar foi um erro”. Repito, só para doer menos. Só para disfarçar meus sentimentos, e, quem sabe, pra tentar me convencer daquilo que não se explica. Porque se eu aceitasse a ideia de que te amar foi meu melhor acerto, como eu conseguiria te esquecer?

Melhor pensar que não me serve. Melhor queimar o que me resta de você.

 

Camila Barretto.