Luz fraca, fumaça, suor. Alguns meses se passaram antes ocorrer um novo encontro. Não demorou muito para conseguir resgatar seu rosto da minha memória, e, ao lembrar de você, resolvi prestar atenção nos detalhes. Da parte de baixo, dava pra ver seus dedos habilidosos dedilhando um instrumento que mais parecia pertencer ao seu corpo.

Presenciei tamanha habilidade uma, duas, três vezes, até notar que havia muito mais do que destreza ali. Havia paixão e entrega. Havia renúncia e diversão, e um sorriso no seu rosto me dizia, matreiro, que eu estava diante de alguém extasiado pelos sons que sua agilidade conseguia emitir. Não obstante seu talento instrumental, também havia o seu dom nato, a sua voz de artista de berço.

E assim, num estalo, retornei ao meu mundo anônimo e novamente me vi cercada por luz, fumaça e suor. Dentre dezenas de gravatas e vestidos, eu estava ali, te observando, onipresente, dois metros a sua frente, diante do seu imenso sorriso. Você me olhou. Você me olhou? Ah, olhou sim. E eu te olhei também. E no meu olhar, me despedi. Era hora de ir. Guardei, tranquila, sua imagem em algum lugar feliz do meu coração, até aquele dia em que resolvi bater na sua porta e sair do anonimato.

Camila Barretto
Trecho do Texto “Um Amor Feito de Luz”