Já no final de semana, meu coração não mais cabia em mim. A última vez que o vi tão acelerado foi quando pulei de pára-quedas no meu último pesadelo. Meu quarto vazio se transformou em uma cortina vermelha, prestes a se abrir. Garganta seca, braços trêmulos, transpiração fora do comum. E eu, enfim, decidi que, ao invés de ir dormir, tinha que falar com você ali, agora. Eu não podia mais esperar.

Atrás da cortina, uma vastidão de pessoas esperava pra ouvir minha voz. Pisquei de repente, e essa imensidão se transformou em uma única pessoa: você. Parece ridículo, mas resolvi fazer um discurso em um papel de caderno e ensaiar as palavras na minha mente antes de pronunciá-las de verdade. Queria chamar sua atenção, sem criar alarde. Queria me fazer notada, sem exercer qualquer pressão. Levarei esse fato cômico comigo, para a vida inteira, mas se você um dia souber disso, não achará, talvez, tão engraçado assim.

Demorei ainda, mais de quinze minutos tentando memorizar as palavras certas, coisas, que por sorte, não aconteceriam em uma situação espontânea. Quem sabe, o oi, tudo bom soaria mais simpático que um olá, como vai você?. Quem sabe, seria melhor nem soar muito simpática, e sim, mais formal e fria. Pronto, falei. Assim que minha voz saiu, o resultado foi uma fala desgrenhada que misturou simpatia e formalidade esquisita, e uma pitada de alucinação que só eu pude sentir na minha própria entonação.

O melhor, contudo, foi ouvir sua resposta, que correu quente como soro nas minhas veias, e enfim, minha pulsação, se estabilizou no contentamento do seu sim.

Camila Barretto.
Trecho do Texto “Um Amor Feito de Luz”