Você me mudou. Algo em mim se transformou desde aquele dia em que você me ligou, disfarçando o choro e dizendo que ia ser difícil demais me esquecer. Você me mudou, justamente, na tarde em que eu te pedi um tempo, e que você, indo contra suas vontades, desapareceu sem deixar pistas no caminho. E assim, ao me ver sozinho, eu enxerguei a linha tênue que separava o verbo amar de um simples querer. Ao processar a magnitude daquilo que eu estava sentindo, que eu tive certeza: até então, eu apenas te “queria”. Mas foi o seu amor persistente e resistente ao tempo, que me fez perceber o quanto eu errei em ficar longe de você.

Eu tive muita sorte, aliás, em te ver voltar pra mim.

Agora, todas as noites, me pego encarando sua foto, meio anestesiado, de um modo que nunca achei que olharia de novo pra alguém. Eu tenho certeza que isso aconteceu após eu ter percebido o quanto você é incrivelmente linda – não só por fora, mas, acima de tudo, por dentro. É claro que eu sempre te achei muito atraente. Eu nunca escondi. Mas me sentir atraído, de fato, não bastava. Era como se eu tivesse agindo como aqueles canalhas que passam por você na rua e te chamam, sem qualquer gentileza, de gostosa ou de princesa. Ninguém ali te conhece de verdade, mas todo mundo quer te comer com os olhos e cuspir nas esquinas o quanto sua beleza é deslumbrante. Admito que eu já agi assim. Por medo, eu evitava te conhecer profundamente e como muitos caras por aí, eu apenas queria a fugacidade do seu corpo. Queria, ao menos, roubar seus beijos efêmeros pra mim.

Contudo, em algum momento, eu comecei a querer te enxergar de verdade, a admirar suas qualidades e a entender suas imperfeições. O que é bem diferente. O que fez toda diferença. Foi quando eu me vi dependente da sua simples companhia, que eu passei a carregar uma certeza: eu continuo te querendo, mas agora, de um jeito muito mais complexo. Agora, além de desejar ter seus beijos, eu te quero comigo em todas as horas do meu dia. Não apenas desejo seu corpo, mas, principalmente, sua presença. Você me mudou, eu já disse. Você me ensinou que o errado seria não me entregar ao prazer que é te amar e ser amado plenamente. Você me mostrou, do pior e do melhor jeito, que o meu verdadeiro problema sempre foi, — e sempre será — o meu impossível querer. Você não me pertence. É como diz aquele parte da música triste: “é um doce te amar, o amargo é querer-te pra mim.”

Mas quer saber? Eu não me importo. Eu prefiro esse sabor amargo na minha boca, do que deixar de experimentar o amor que estou sentindo. Sem dúvidas, você é o melhor amor que eu já experimentei.

 

_Camila Barretto.

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”