Nos meses que se passam, me pego escrevendo um roteiro pra ele, na tentativa de dar um fim digno ao nosso começo intricado. Mas, a cada dia em que me empenho em registrar um novo capítulo, me vejo parada no meio, apagando e reescrevendo os desfechos que já julgava ter completado. Enquanto isso, não consigo focar em novos caminhos, em outros olhares. 

Não sou cineasta, mas até que me viro. Construo uma história com poucos cenários, escassos diálogos e muitos sentimentos. Uma trama baseada em silêncios e olhares que falam calados. Ao menos, dizem que quando um filme é bom, o som não se faz tão necessário para que o público o compreenda. Este é meu grande alívio e expectativa: ter a compreensão daqueles que, por ventura, estejam aqui me assistindo. Há tempos, eu vejo que tudo não passará de um curta-metragem metido à longa. Vejo que esse romance, na verdade, é um drama, e que o suspense não é nada engraçado.

Entendo, faz tempo, que este enredo, quando exposto prematuramente aos críticos da sociedade, tem grandes chances de ser um fiasco, tornando-me um fracasso aos olhos de um público sem qualquer empatia. Quem sabe, meu roteiro nunca chegue a virar um filme de sucesso, sobretudo, pelo fato de eu hesitar colocá-lo em cartaz. Quem sabe, seja melhor parar com essa ideia de final impossível, e entender que nosso caso está mais para uma coletânea de roteiros pela metade. Nossa vida caberia melhor nos capítulos separados de um livro.

Só por isso, prefiro criar nossa narrativa com calma e em sigilo. Prefiro fazer dela o meu roteiro inacabado, desdobrando-a nas cenas curtas dos contos que eu escrevo e dando-lhe vida, sutilmente, nas minhas poesias impublicáveis. Assim, unindo palavra por palavra, farei reais as cenas que vivemos, num script que sobrevive das façanhas de um único personagem.

Aquele personagem que não ouso dizer o nome.

Camila Barretto.

— Desafio das Palavras (a versão dela)

Paulino x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título