Contar o que sinto é uma velha mania que tenho de testar minha resistência, de selecionar o que realmente eu suporto ou aquilo que consegue ser inabalável às verdades. Despindo a verdade sem entrelinhas, me exponho para descobrir o quê, de fato, existe por detrás da cortina. Um dia lá, acordo e me canso de tanto teatro. Eu, especialista em devaneios amorosos, me enfado rápido em meio aos sonhos que invento, e, de um jeito premeditado (e, por vezes, desastroso), empurro meus sonhos quentes em um mar de água gelada, numa necessidade de provar, da forma mais brusca possível, que também sou capaz de mergulhar na realidade fria da vida.Mas não sou tão capaz assim, não aprendi a nadar direito, e, acabo me afogando sozinha nos meus próprios sonhos evaporados. Eu poderia ter ficado calada, segurado a onda e me divertido um pouco mais. Mas preferi acabar com a nossa sedutora brincadeira de sentimentos implícitos. Poderia ter dado uma de desapegada, e topado o próximo encontro, com direito a abraços, beijos e sorrisos. Mas o que eu faria com toda saudade que brotaria logo após a despedida? Seria fácil demais ter feito tudo isso de um jeito errado e perfeito, me camuflando nas cores de uma ilusão maquiada.

Eu perdi a chance de ficar calada, de ter cultivado, pra sempre, esse velho segredo. Eu poderia ter feito como tantas outras, que, talvez, por medo ou por maldade, se escondem, dissimulando quaisquer emoções. Mas, no silêncio dos meus sentimentos, eu não seria eu mesma. Eu continuaria vestindo essa fantasia apertada de que pouco-me-importava. Mas eu me importo, e eu te disse isso. E não me arrependo.

Tenho essa mania de falar o que sinto só pra ver o que vai acontecer. E, mesmo que eu não use de meios tão convencionais, costumo contar tudo de forma muito direta, intensa, e, quem sabe, rápida demais. Tem hora que me esgotam as indiretas e prefiro chamar num canto, dizer com todas as letras. Acabo com a magia do mistério, pelo menos, por aquele instante. Faço tudo ao contrário daquilo do que os amigos ensinam. Entrego-me como território conquistado e não demora muito pra o impacto desastroso ser sentido.

Quase sempre, o resultado do outro lado, é aquele velho sumiço. Não há mais sedução e agora, só o medo e o espanto. É visível o receio de eu ser doente e estar morrendo de amores. Mas não se preocupe comigo, é só meu jeito estranho de me mostrar por dentro. Infelizmente, quase ninguém quer ser contagiado.

Até mesmo você, que prefere fugir de tudo aquilo que eu sinto e, in felizmente, não escondo.

Camila Barretto.