Da varanda do meu prédio, aprecio, com um largo sorriso, o vento forte que bagunça meus cabelos. Enquanto na rua, uns reclamam e outros se ajeitam, eu, simplesmente, curto o momento e agradeço essa sensação única de me sentir tocada pelo invisível. Eu gosto dessa sensação de liberdade, dos meus cabelos envolvendo o meu rosto, e da minha pele ficando arrepiada. Isso me lembra quando estamos juntos. E é exatamente assim que eu me sinto quando estou contigo: intensamente tocada, intimamente atingida, estranhamente livre e loucamente desejada.

Você é como um vendaval sem-vergonha que levanta minha saia no meio da multidão curiosa. De repente, me deixa vermelha, me rouba a graça e me torna um tanto indefesa com sua chegada imprevista. Você me desnuda na frente dos outros, expõe aos sete ventos meus sentimentos e eu não sei muito bem, como esconder algo que já foi, subitamente, revelado. Pela cara assustada que eu faço, todo mundo já desconfia. Todo mundo me olha e já percebe o quanto eu te quero, – mas não falo.

Mas não só de vento forte você é feito. Você também é frio e silêncio. É como brisa sorrateira que invade a janela da sala e sai derrubando tudo pelo chão. Às vezes, chega sem fazer alarde, e desorganiza anos de um trabalho bem feito. Mistura, de forma irreversível, meus papéis e anseios, me deixa aflita, perdida na sua própria confusão. As pessoas não fazem ideia do estrago que um coração aberto pode fazer. E assim, como uma brisa momentânea, você me invade pelas frestas do meu peito e me cria um caos inevitável.

Mas “você é a bagunça que me deixa em ordem”, já dizia um grande poeta iluminado.

Você é o homem capaz de me tirar da zona de conforto e sacudir a poeira do lugar. É a rajada de paixão que amarrota minhas roupas, embaraça meus cabelos e meus pensamentos, sempre tão organizados. Você é chuva que embaça os vidros dos meus olhos, que me borra a maquiagem sem pena, e me deixa doente depois que vai embora. Você me pega desprevenida. Mas, apesar do caos, dos nós e dos embaraços que você me traz, você me faz sentir viva, intensa como o vento forte que causa em minha pele um arrepio gostoso.

Você me faz sentir viva, eu repito.

E isso pra mim, já basta.

 

Camila Barretto.

 

“Este texto faz parte da 2ª edição do Desafio das Palavras (Camila Barretto x Giulia Christy) – um jogo proposto com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Duas escritoras, cada uma com seu olhar sobre o tema/título.”