No dia em que te enviei uma mensagem explicando que o meu convite pra almoçar era exclusivamente “coisa de amigo”, foi a primeira – e última – vez em que eu tentei agir com um pouquinho de juízo. Talvez, este tenha sido o único momento, em que eu me esforcei em estabelecer os limites racionais das minhas possibilidades. Doce engano o meu, de achar que eu poderia evitar, por muito tempo, a vontade de te querer por perto. Eu tentei construir uma muralha entre a gente.

Eu tentei avisar que você tinha chegado em um péssimo momento. Apesar de o meu coração ter se derretido, eu me esforcei em parecer indignada com aquela conversa de que “não ia mais conseguir trabalhar do tanto que ia ficar admirando minha fotografia”. É, eu tentei repreender sua atitude. Fiz até você pedir desculpas. Balancei a cabeça em um tom de desaprovação e falei pra mim mesma que você estava estragando tudo, com sua audácia de me enviar aquele comentário maravilhosamente impróprio. Um comentário que mexeu tanto comigo, porque havia partido, exclusivamente, de você.

Confesso que, ao presumir seu interesse, até pensei em voltar atrás. No entanto, deixei tudo acontecer só para te dar a chance de se mostrar de verdade. De um jeito estranho, eu torci pra que seu lado verdadeiro me decepcionasse de alguma forma. Não desmarquei nosso encontro só porque queria provar pra mim mesma que você era um homem como muitos por aí, e que o meu encanto era ilusório, passageiro. Eu estava tão apavorada com a possibilidade de me encantar ainda mais, que eu queria, secretamente, que você fosse o oposto da minha primeira boa impressão. No fundo, eu até torci pra que você fosse um cara enfadonho, inconveniente, arrogante, de tal modo que eu nunca mais quisesse te encontrar de novo.

Mas aí, sem fazer nenhum esforço, você me provou, justamente, o contrário.

E foi assim, que eu passei a desejá-lo, a cada segundo do meu dia.

 

Camila Barretto.