“Enquanto ele ainda está ajustando suas coisas na mala do carro, dou uma rápida espiada e me sinto mergulhando, um pouco mais, em sua secreta intimidade. Acho que assim como as casas, os carros dizem muito sobre seus donos.

Não tomo como base, no entanto, se o modelo é arrojado ou se o banco é feito de couro. Mas sim, o que posso extrair dele nos mais simples detalhes lá de dentro, especialmente, ao invadir seu pequeno mundo de quatro rodas. Na minha discreta inspeção, avisto alguns livros espalhados no banco de trás, um cabide com um terno e uma camisa social impecavelmente passada.
Logo ao lado, muitas pastas de trabalho. E assim, faço uma lista mental das coisas novas que eu descubro sobre ele. Estico meu pé, e posso sentir alguns panfletos velhos e amassados no chão, dando um toque ainda mais despojado àquele cenário imperiosamente masculino, não fossem os óculos de sol femininos na parte externa do porta-luvas.

Não fosse uma agenda amarela com o nome dela. E um chaveiro com uma balairina. Não fosse tudo o que já aconteceu entre os dois ali dentro.

Vamos? – Pergunta Henrique, ignorando o fato de eu ter percebido a presença de todas aquelas coisas. Aquelas coisas com o cheiro dela.
Vamos. – Digo, sem a mesma convicção de um minuto atrás.

Definitivamente seu mundo não é só seu. Ela faz parte do mundo dele. Ela está em todo lugar.”

Camila Barretto.

Trecho do texto “Vulnerável”.