“Após perceber que eu fui, praticamente, engolida pelas dimensões do banco em que estou sentada, ele sente a necessidade de explicar o porquê de ter um carro tão grande. E tão bem equipado. E, indubitavelmente, tão caro. Apesar de não querer saber como ele prefere gastar seu dinheiro, me inclino para ele, para ouvir sua história, na expectativa de aprender um pouco mais sobre sua vida. Ele virou a minha nova escola.

Minha mãe me fez comprar esse carro. – diz ele, deixando suas feições mais doces ao falar, pela primeira vez, de sua mãe. – Sabe como é mãe, né? Ela ficou preocupada comigo depois que eu passei a pegar, com frequência, a estrada, e aí, fez de tudo para que comprasse esse carro na mão do meu pai.

Na minha casa também eu fui induzida a comprar o carro velho do meu pai. Ninguém me deu nada de presente ou de graça, lembro e sorriu. Acho essa coincidência familiar interessante, apesar de ser mais comum do que se pensa.

E ele continua com sua performance quase teatral – Henrique, você vai comprar esse carro e ponto final! – ele muda o tom de voz para um timbre mil vezes mais agudo, e faz uma careta ao imitar a fala de uma velha rabugenta. Sei que está imitando sua mãe com um tanto de exagero, e isso é muito engraçado. E inusitado. E fofo.

Rio, ao observá-lo arremedando, carinhosamente, sua mãe, e em meus pensamentos tento imaginar um homem de negócios tão influente como ele, obedecendo às ordens de sua mãe protetora, tal como qualquer bom menino faz.

Bom menino, – digo em aprovação, lembrando dos meus pensamentos.

Automaticamente, lembro também de minha mãe e o quanto ela cuida de mim, mas não quero me lembrar dela agora. Tudo isso ficaria pior com a imagem de minha mãe em minha consciência, me alertando e me aconselhando. Ela, certamente, me faria descer desse carro agora, cuidando para que meu coração não sofra a decepção que está prestes a sofrer.

Eu meio que tive um acidente há algum tempo atrás. Meu carro capotou e eu vi que precisava de algo mais seguro – ele continua, com tranquilidade apontando para os airbags, enquanto, dentro de mim, me salta os olhos a trágica ideia de vê-lo capotando o carro. Ferido. Morto.

Afasto os pensamentos mórbidos, mas fico angustiada só de ter ouvido a sua história real, querendo dizer que se algo acontecer com ele um dia, eu vou chorar muito, pois é isso que tenho vontade de fazer agora. Mas não faço e nem falo nada. Apenas assinto com a cabeça, esboçando uma expressão de pavor e compaixão. Quero que ele dirija esse carro com seus sete mil airbags, pra sempre.”

Camila Barretto.

Trecho do Texto “Vulnerável”